domingo, 27 de maio de 2018

Cristandade e Idade Média ‒ A Cristandade (5)

Coroacão do imperador do Sacro Império em Frankfurt,
pelos bispos de Mainz, Colonia e Trier
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Existiu a Cristandade?

Sim. Sob o influxo de todas as energias naturais e sobrenaturais entesouradas nas nações cristãs, foi emergindo lentamente do caos da barbárie na alta Idade Média, a sociedade civil cristã, A Cristandade.

Sua beleza, de início indecisa e sutil, mais promessa e esperança que realidade, foi se afirmando a medida que, com o escoar dos séculos de vida cristã, a Europa batizada "crescia em graça e santidade".


O que nasceu na Idade Média?

Nasceram os reinos, e as estirpes fidalgas, os costumes corteses, e as leis justas, as corporações e a cavalaria, a escolástica e as universidades, o estilo gótico e o canto dos menestréis, por exemplo.


A Idade Média atingiu o máximo da Civilização?

Não. Ela não atingiu o máximo de seu desenvolvimento. Muito ainda haveria que progredir.


Então, de onde vem o encanto da Idade Média?

O encanto grandioso e delicado da Idade Média não provém tanto do que ela realizou, como da harmonia profunda e da veracidade cintilante dos princípios sobre os quais ela construiu.

Áustria
Ninguém possuiu como ela, o conhecimento profundo da ordem natural das coisas; ninguém teve como ela o senso vivo da insuficiência do natural — mesmo quando desenvolvido na plenitude de sua ordem própria — e da necessidade do sobrenatural; ninguém como ela, brilhou ao sol da influência sobrenatural com mais limpidez e na candura de uma maior sinceridade.


Como eram os homens que fizeram a Idade Média?

Eram homens que lutaram e sofreram na realização do ideal da Civilização Cristã, e que na sua caminhada muitas vezes recuaram ou desfaleceram ao longo do caminho; mas de homens que sempre continuaram fiéis ao seu ideal, ainda mesmo quando dele se afastavam por seus atos.

E dai uma consonância profunda de todas as instituições, de todos os costumes, de todas as tradições nascidas nessa época, não só com as circunstâncias contingentes e transitórias do tempo em que surgiram, mas com as exigências genéricas da alma humana "naturaliter christiana" e as tendências espirituais peculiares aos povos do Ocidente.


A Civilização Cristã é igual por toda parte?

Sim na essência, não na concretização em cada país.

Toda a civilização cristã há de ser inteiramente cristã, católica, universal, mas há de se ajustar, há de respeitar, há de desenvolver e estimular as características de cada região, e de cada povo.


Então deve respeitar as características locais?

Sim. A sociedade cristã vive de acordo com a ordem natural. E, por isto, ela há de respeitar integralmente as características regionais de cada povo ou região.

Budapest, Hungría.
Respeitar e desenvolver, porque essas características são dons de Deus, e todos os dons de Deus merecem desenvolvimento.

Nos séculos de civilização cristã, cada povo teve, pois, suas características próprias, bem definidas.


Onde a alma nacional se encontra melhor?

A alma nacional, em todas as suas aspirações universais e humanas, em todas as suas aspirações nacionais e locais, encontra plena e ordenada expansão dentro da civilização cristã.

Dai a enorme variedade de formas de governo e de organização social ou econômica, de expressões artísticas e de produções intelectuais, nas varias nações da Europa medieval.


Do que servem os símbolos e a cultura nacional?

Os símbolos são um patrimônio nacional, uma condição essencial para a sobrevivência e progresso espiritual da nação.

Eles tem uma consonância indefinível e profunda com a mentalidade nacional, uma consonância que é natural e verídica, e não puramente fictícia e convencional.

Por isto, em via de regra, cada povo elabora uma só arte, uma só cultura e nela caminha enquanto existe.

O maior tesouro natural de um povo é a posse de sua própria cultura, isto é, quase a posse de sua própria mentalidade.

Escudo do Reino das Duas Sicílias


Quem pode admirar a Civilização Cristã?

Fora da Igreja uma civilização cristã só pode ser admirada pelas almas que tendem para o Catolicismo.

Dentro da Igreja só pode ser admirada e vivida pelas almas que vivem do Catolicismo.

Ela é incompreensível, é cheia de tédio, é odiosa até em sua superioridade solar, para as almas que começam a abandonar a Igreja, ou que, do lado de fora, blasfemam contra ela.

A civilização cristã só viveu plenamente, enquanto a Europa foi sincera e profundamente católica.


Qual é a grande tragédia da civilização?

A grande tragédia da civilização ocidental foi precisamente a ruptura com o Catolicismo que, no século XVI, arrebatou ao grêmio da Igreja as nações protestantes.

Essa apostasia foi aprofundada no terreno civil pela Revolução Francesa de 1789 e a Revolução comunista de 1917. Essas revoluções foram completadas pela Revolução da Sorbonne de Maio de 1968.

Todas elas somadas em cadeia formam uma só Revolução com R maiúsculo. A Revolução é a causa do caos de hoje e, portanto da grande tragédia da civilização.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951) 




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domingo, 20 de maio de 2018

A civilização cristã e a sociedade perfeita ‒ A Cristandade (4)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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A civilização cristã é a sociedade perfeita?

Sim. Se Jesus Cristo é o verdadeiro ideal de perfeição de todos os homens, uma sociedade que aplique todas as Suas leis tem de ser uma sociedade perfeita, a cultura e a civilização nascidas da Igreja de Cristo tem de ser forçosamente, não só a melhor civilização, mas, a única verdadeira. Di-lo o Santo Pontífice Pio X:

"Não há verdadeira civilização sem civilização moral, e não há verdadeira civilização moral senão com a Religião verdadeira". (Carta ao Episcopado Francês, de 28-VIII-1910, sobre "Le Sillon"). 

De onde decorre com evidência cristalina que não há verdadeira civilização senão como decorrência e fruto da verdadeira Religião.



A ação da Igreja sobre os homens é só individual?

Não, Ela forma também povos, culturas, civilizações.



Por quê?

Porque Deus criou o homem naturalmente sociável, e quis que os homens, em sociedade, trabalhassem uns pela santificação dos outros.



Os demais homens nos influenciam?

Sim. Temos todos, pela própria pressão do instinto de sociabilidade, a tendência a comunicar em certa medida nossas ideias aos outros, e, em certa medida, em receber a influência deles. Isto se pode afirmar nas relações de indivíduo a indivíduo, e do indivíduo com a sociedade.



As leis, costumes, culturas nos influenciam?

Os ambientes, as leis, as instituições em que vivemos exercem efeito sobre nós, têm sobre nós uma ação pedagógica.

Resistir inteiramente ao ambiente ruim, cuja influência nos penetra até por osmose e como que pela pele, é obra de alta e árdua virtude.

E por isto os primitivos cristãos não foram mais admiráveis enfrentando as feras do Coliseu, do que mantendo íntegro seu espírito católico embora vivessem no seio de uma sociedade pagã.



A cultura e a civilização são meios de salvação da alma?

Sim. A cultura e a civilização são fortíssimos meios para agir sobre as almas. Agir para a sua ruína, quando a cultura e a civilização são pagãs.

Para a sua edificação e sua salvação, quando são católicas.

Por isso, a Igreja não pode desinteressar-se em produzir uma cultura e uma civilização, e se contentar em agir sobre cada alma a título meramente individual.



Todo cristão é um foco de Civilização Cristã?

Sim. Toda a alma sobre a qual a Igreja age, e que corresponde generosamente a tal ação, é como que um foco ou uma semente da civilização cristã, que ela expande ativa e energicamente em torno de si.

A virtude transparece e contagia. Contagiando, propaga-se. Agindo e propagando-se tende a transformar-se em cultura e civilização católica.



A Igreja pode não produzir uma Civilização e uma cultura católicas?

Não. O próprio da Igreja é de produzir uma cultura e uma civilização cristã. É de produzir todos os seus frutos numa atmosfera social plenamente católica.



O fiel deve desejar a Civilização Cristã?

Sim. O católico deve aspirar a uma civilização católica como o homem encarcerado num subterrâneo deseja o ar livre, e o pássaro aprisionado anseia por recuperar os espaços infinitos do Céu.



Qual é, em resumo, o ideal católico hoje?

E é esta nossa finalidade, nosso grande ideal. Caminhamos para a civilização católica que poderá nascer dos escombros do mundo de hoje, como dos escombros do mundo romano nasceu a civilização medieval.

Caminhamos para a conquista deste ideal, com a coragem, a perseverança, a resolução de enfrentar e vencer todos os obstáculos, com que os Cruzados marcharam para Jerusalém.

Porque, se nossos maiores souberam morrer para reconquistar o sepulcro de Cristo, como não queremos nós filhos da Igreja como eles lutar e morrer para restaurar algo que vale infinitamente mais do que o preciosíssimo sepulcro do Salvador, isto é, seu reinado sobre as almas e as sociedades, que Ele criou e salvou para O amarem eternamente?


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)



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domingo, 13 de maio de 2018

Igreja e Civilização Cristã ‒ A Cristandade (3)


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Se o mundo adotasse a Civilização Cristã resolveria todos os problemas?

Se todos os homens praticassem a Lei de Deus se resolveriam rapidamente todos os problemas políticos, econômicos, sociais, que nos atormentam.

Não se pode esperar uma solução enquanto os homens viverem na inobservância habitual da Lei de Deus.


A sociedade humana realizou alguma vez este ideal de perfeição?

Sem dúvida. Di-lo o imortal Leão XIII: operada a Redenção e fundada a Igreja,

"como que despertando de antiga, longa e mortal letargia, o homem percebeu a luz da verdade, que tinha procurado e desejado em vão durante tantos séculos; reconheceu sobretudo que tinha nascido para bens muito mais altos e muito mais magníficos do que os bens frágeis e perecíveis que são atingidos pelos sentidos, e em torno dos quais tinha até então circunscrito seus pensamentos e suas preocupações. Compreendeu ele que toda a constituição da vida humana, a lei suprema, o fim a que tudo se deve sujeitar, é que, vindos de Deus, um dia devamos retornar a Ele.

"Desta fonte, sobre este fundamento, viu-se renascer a consciência da dignidade humana; o sentimento de que a fraternidade social é necessária fez então pulsar os corações; em consequência, os direitos e deveres atingiram sua perfeição, ou se fixaram integralmente, e, ao mesmo tempo, em diversos pontos, se expandiram virtudes tais, como a filosofia dos antigos sequer pôde jamais imaginar.

"Por isto, os desígnios dos homens, a conduta da vida, os costumes tomaram outro rumo. E, quando o conhecimento do Redentor se espalhou ao longe, quando sua virtude penetrou até os veios íntimos da sociedade, dissipando as trevas e os vícios da antiguidade, então se operou aquela transformação que, na era da Civilização Cristã, mudou inteiramente a face da terra". (Leão XIII Encíclica "Tametsi futura prospiscientibus", I-XI-1900).

Casimiro III, o Grande, rei da Polônia

O que é a civilização?

Civilização é o estado de uma sociedade humana que possui uma cultura, e que criou, segundo os princípios básicos desta cultura, todo um conjunto de costumes, de leis, de instituições, de sistemas literários e artísticos próprios.



O que é uma civilização católica?

Uma civilização é católica, se for a resultante fiel de uma cultura católica e se, pois, o espírito da Igreja, for o próprio princípio normativo e vital de seus costumes, leis instituições, e sistemas literários e artísticos.



O que é então a Civilização Cristã e a cultura cristã?

A civilização cristã é uma luminosa realidade feita de uma ordem e uma perfeição antes sobrenatural e celeste do que natural e terrestre, produto da cultura cristã, a qual por sua vez é filha da Igreja Católica.



O que é a cultura católica?

A cultura católica é o cultivo da inteligência, da vontade e da sensibilidade segundo as normas da moral ensinada pela Igreja.

Ela se identifica com a própria perfeição da alma.

Se ela existir na generalidade dos membros de uma sociedade humana, ela será um fato social e coletivo.

E constituirá um elemento — o mais importante — da própria perfeição social.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)



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domingo, 6 de maio de 2018

Igreja, Ordem, Paz e Idade Média ‒ A Cristandade (2)

Luis Dufaur
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No que consiste a ordem?

A ordem é a disposição das coisas segundo sua natureza.

Assim, um relógio está em ordem quando todas as suas peças estão ordenadas segundo a natureza e o fim que lhes é próprio: apontar as horas.

Diz-se que há ordem no universo sideral porque todos os corpos celestes estão ordenados segundo sua natureza e fim. A Idade Média tendeu para implantar essa ordem em todas as coisas.

De onde provinha a paz medieval?

A paz medieval vinha do fato que a ordem engendra a tratabilidade. A tranquilidade da ordem é a paz.

Basta ter tranquilidade para ter paz?

Não. Não é qualquer tranquilidade que merece ser chamada paz mas apenas a que resulta da ordem.

Por exemplo, a paz de consciência é a tranquilidade da consciência reta: não pode confundir-se com o letargo da consciência embotada.

O que era a harmonia medieval?

Existe harmonia quando as relações entre dois seres são conformes à natureza e o fim de cada qual.

A harmonia é o operar das coisas umas em relação às outras, segundo a ordem. Essa harmonia impregnou toda a Idade Média.

Qual é a relação entre ordem social e perfeição espiritual?

Quando um ser está inteiramente disposto segundo sua natureza, está em estado de perfeição.

Assim uma pessoa com grande capacidade de estudo, posta em uma Universidade em que haja todos os meios para estudar, está posta em condições perfeitas.

A trajetória dos astros é perfeita, porque corresponde inteiramente à natureza e ao fim de cada qual.

A Idade Média visou pôr nessa perfeição em tudo. Por isso gerou muitos santos.

Qual é a condição essencial da ordem e da paz?

A posse da verdade religiosa é a condição essencial da ordem, da harmonia, da paz e da perfeição.

A vida foi difícil na Idade Média?

Sim. A fidelidade à Lei exige sacrifícios por vezes heroicos dos próprios católicos que vivem no seio da Igreja banhados pela superabundância da graça e de todos os meios de santificação.

Foi o caso da Idade Média.

Se os indivíduos praticam a Lei de Deus, o que acontece na sociedade?

Isto equivale a perguntar o que acontece num relógio em que cada peça trabalha na perfeição. Dá as horas perfeitamente.

Uma sociedade em que todos os fossem bons católicos, seria como a sociedade traçada por Santo Agostinho: imaginemos:

"um exército constituído de soldados como os forma a doutrina de Jesus Cristo, governadores, maridos, esposos, pais, filhos, mestres, servos, reis, juízes, contribuintes, cobradores de impostos como os quer a doutrina cristã!

"E ousem (os pagãos) ainda dizer que essa doutrina é oposta aos interesses do Estado!

"Pelo contrário, cumpre-lhes reconhecer sem hesitação que ela é uma grande salvaguarda para o Estado, quando fielmente observada" (Epíst. CXXXVIII al. 5 ad Marcellinum, cap. II, n. 15).



Qual é o ideal de uma sociedade cristã?

Santo Agostinho, falando da Igreja Católica, exclama:

"Conduzes e instrues as crianças com ternura, os jovens com vigor, os anciãos com calma, como comporta a idade não só do corpo mas da alma. Submetes as esposas a seus maridos, por uma casta e fiel obediência, não para saciar a paixão, mas para propagar a espé­cie e constituir a sociedade doméstica.

"Conferes autoridade aos mari­dos sobre as esposas, não para que abusem da fragilidade do seu sexo, mas para que sigam as leis de um sincero amor. Subordinas os filhos aos pais por uma terna autoridade.

"Unes não só em sociedade, mas em uma como que fraternidade os cidadãos aos cidadãos, as nações às nações, e os homens entre si, pela recordação de seus pri­mei­ros pais.

"Ensinas aos reis a velar pelos povos, e prescreves aos povos que obedeçam os reis.

"Ensinas com solicitude a quem se deve a honra, a quem o afeto, a quem o respeito, a quem o temor, a quem o consolo, a quem a advertência, a quem o encorajamento, a quem a correção, a quem a reprimenda, a quem o castigo; e fazes saber de que modo, se nem todas as coisas a todos se devem, a todos de deve a caridade e a ninguém a injustiça". (De Moribus Ecclesiae, cap. XXX, n. 63).

Seria impossível descrever melhor o ideal de uma sociedade intei­ra­mente cristã. Poderia em uma sociedade a ordem, a paz, a harmonia, a perfeição ser levada a limite mais alto?





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