domingo, 12 de dezembro de 2010

Cristandade e Idade Média ‒ A Cristandade (5)

Coroacão do imperador do Sacro Império em Frankfurt, pelos bispos de Mainz, Colonia e Trier

Existiu a Cristandade?

Sim. Sob o influxo de todas as energias naturais e sobrenaturais entesouradas nas nações cristãs, foi emergindo lentamente do caos da barbárie na alta Idade Média, a sociedade civil cristã, A Cristandade.

Sua beleza, de início indecisa e sutil, mais promessa e esperança que realidade, foi se afirmando a medida que, com o escoar dos séculos de vida cristã, a Europa batizada "crescia em graça e santidade".


O que nasceu na Idade Média?

Nasceram os reinos, e as estirpes fidalgas, os costumes corteses, e as leis justas, as corporações e a cavalaria, a escolástica e as universidades, o estilo gótico e o canto dos menestréis, por exemplo.


A Idade Média atingiu o máximo da Civilização?

Não. Ela não atingiu o máximo de seu desenvolvimento. Muito ainda haveria que progredir.


Então, de onde vem o encanto da Idade Média?

O encanto grandioso e delicado da Idade Média não provém tanto do que ela realizou, como da harmonia profunda e da veracidade cintilante dos princípios sobre os quais ela construiu.

Áustria
Ninguém possuiu como ela, o conhecimento profundo da ordem natural das coisas; ninguém teve como ela o senso vivo da insuficiência do natural — mesmo quando desenvolvido na plenitude de sua ordem própria — e da necessidade do sobrenatural; ninguém como ela, brilhou ao sol da influência sobrenatural com mais limpidez e na candura de uma maior sinceridade.


Como eram os homens que fizeram a Idade Média?

Eram homens que lutaram e sofreram na realização do ideal da Civilização Cristã, e que na sua caminhada muitas vezes recuaram ou desfaleceram ao longo do caminho; mas de homens que sempre continuaram fiéis ao seu ideal, ainda mesmo quando dele se afastavam por seus atos.

E dai uma consonância profunda de todas as instituições, de todos os costumes, de todas as tradições nascidas nessa época, não só com as circunstâncias contingentes e transitórias do tempo em que surgiram, mas com as exigências genéricas da alma humana "naturaliter christiana" e as tendências espirituais peculiares aos povos do Ocidente.


A Civilização Cristã é igual por toda parte?

Sim na essência, não na concretização em cada país.

Toda a civilização cristã há de ser inteiramente cristã, católica, universal, mas há de se ajustar, há de respeitar, há de desenvolver e estimular as características de cada região, e de cada povo.


Então deve respeitar as características locais?

Sim. A sociedade cristã vive de acordo com a ordem natural. E, por isto, ela há de respeitar integralmente as características regionais de cada povo ou região.

Budapest, Hungría.
Respeitar e desenvolver, porque essas características são dons de Deus, e todos os dons de Deus merecem desenvolvimento.

Nos séculos de civilização cristã, cada povo teve, pois, suas características próprias, bem definidas.


Onde a alma nacional se encontra melhor?

A alma nacional, em todas as suas aspirações universais e humanas, em todas as suas aspirações nacionais e locais, encontra plena e ordenada expansão dentro da civilização cristã.

Dai a enorme variedade de formas de governo e de organização social ou econômica, de expressões artísticas e de produções intelectuais, nas varias nações da Europa medieval.


Por quê se fala de alma nacional? Não seria melhor procurar um alma planetária?

A expansão das tendências nacionais causa ao povo um grande bem estar físico.

A mentalidade nacional inspira a formação de símbolos, costumes, artes, nos quais ela se exprime, se define e se afirma, se contempla a si mesma e se solidifica.


Do que servem os símbolos e a cultura nacional?

Os símbolos são um patrimônio nacional, uma condição essencial para a sobrevivência e progresso espiritual da nação.

Eles tem uma consonância indefinível e profunda com a mentalidade nacional, uma consonância que é natural e verídica, e não puramente fictícia e convencional.

Por isto, em via de regra, cada povo elabora uma só arte, uma só cultura e nela caminha enquanto existe.

O maior tesouro natural de um povo é a posse de sua própria cultura, isto é, quase a posse de sua própria mentalidade.

Escudo do Reino das Duas Sicílias


Quem pode admirar a Civilização Cristã?

Fora da Igreja uma civilização cristã só pode ser admirada pelas almas que tendem para o Catolicismo. Dentro da Igreja só pode ser admirada e vivida pelas almas que vivem do Catolicismo.

Ela é incompreensível, é cheia de tédio, é odiosa até em sua superioridade solar, para as almas que começam a abandonar a Igreja, ou que, do lado de fora, blasfemam contra ela.

A civilização cristã só viveu plenamente, enquanto a Europa foi sincera e profundamente católica.


Qual é a grande tragédia da civilização?

A grande tragédia da civilização ocidental foi precisamente a ruptura com o Catolicismo que, no século XVI, arrebatou ao grêmio da Igreja as nações protestantes.

Essa apostasia foi aprofundada no terreno civil pela Revolução Francesa de 1789 e a Revolução comunista de 1917. Essas revoluções foram completadas pela Revolução da Sorbonne de Maio de 1968.

Todas elas somadas em cadeia formam uma só Revolução com R maiúsculo. A Revolução é a causa do caos de hoje e, portanto da grande tragédia da civilização.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, “O Legionário”, 13/05/45)

Desejaria receber atualizações instantâneas e gratuitas de "Glória da Idade Média" em meu email

domingo, 5 de dezembro de 2010

A civilização cristã e a sociedade perfeita ‒ A Cristandade (4)

A civilização cristã é a sociedade perfeita?

Sim. Se Jesus Cristo é o verdadeiro ideal de perfeição de todos os homens, uma sociedade que aplique todas as Suas leis tem de ser uma sociedade perfeita, a cultura e a civilização nascidas da Igreja de Cristo tem de ser forçosamente, não só a melhor civilização, mas, a única verdadeira. Dí-lo o Santo Pontífice Pio X:

"Não há verdadeira civilização sem civilização moral, e não há verdadeira civilização moral senão com a Religião verdadeira". (Carta ao Episcopado Francês, de 28-VIII-1910, sobre "Le Sillon"). 

De onde decorre com evidência cristalina que não há verdadeira civilização senão como decorrência e fruto da verdadeira Religião.



A ação da Igreja sobre os homens é só individual?

Não, Ela forma também povos, culturas, civilizações.



Por quê?

Porque Deus criou o homem naturalmente sociável, e quis que os homens, em sociedade, trabalhassem uns pela santificação dos outros.



Os demais homens nos influenciam?

Sim. Temos todos, pela própria pressão do instinto de sociabilidade, a tendência a comunicar em certa medida nossas idéias aos outros, e, em certa medida, em receber a influência deles. Isto se pode afirmar nas relações de indivíduo a indivíduo, e do indivíduo com a sociedade.



As leis, costumes, culturas nos influenciam?

Os ambientes, as leis, as instituições em que vivemos exercem efeito sobre nós, têm sobre nós uma ação pedagógica. Resistir inteiramente ao ambiente ruim, cuja influência nos penetra até por osmose e como que pela pele, é obra de alta e árdua virtude. E por isto os primitivos cristãos não foram mais admiráveis enfrentando as feras do Coliseu, do que mantendo íntegro seu espírito católico embora vivessem no seio de uma sociedade pagã.



A cultura e a civilização são meios de salvação da alma?

Sim. A cultura e a civilização são fortíssimos meios para agir sobre as almas. Agir para a sua ruína, quando a cultura e a civilização são pagãs. Para a sua edificação e sua salvação, quando são católicas. Por isso, a Igreja não pode desinteressar-se em produzir uma cultura e uma civilização, e se contentar em agir sobre cada alma a título meramente individual.



Todo cristão é um foco de Civilização Cristã?

Sim. Toda a alma sobre a qual a Igreja age, e que corresponde generosamente a tal ação, é como que um foco ou uma semente da civilização cristã, que ela expande ativa e energicamente em torno de si. A virtude transparece e contagia. Contagiando, propaga-se. Agindo e propagando-se tende a transformar-se em cultura e civilização católica.



A Igreja pode não produzir uma Civilização e uma cultura católicas?

Não. O próprio da Igreja é de produzir uma cultura e uma civilização cristã. É de produzir todos os seus frutos numa atmosfera social plenamente católica.



O fiel deve desejar a Civilização Cristã?

Sim. O católico deve aspirar a uma civilização católica como o homem encarcerado num subterrâneo deseja o ar livre, e o pássaro aprisionado anseia por recuperar os espaços infinitos do Céu.



Qual é, em resumo, o ideal católico hoje?

E é esta nossa finalidade, nosso grande ideal. Caminhamos para a civilização católica que poderá nascer dos escombros do mundo de hoje, como dos escombros do mundo romano nasceu a civilização medieval. Caminhamos para a conquista deste ideal, com a coragem, a perseverança, a resolução de enfrentar e vencer todos os obstáculos, com que os Cruzados marcharam para Jerusalém.

Porque, se nossos maiores souberam morrer para reconquistar o sepulcro de Cristo, como não queremos nós filhos da Igreja como eles lutar e morrer para restaurar algo que vale infinitamente mais do que o preciosíssimo sepulcro do Salvador, isto é, seu reinado sobre as almas e as sociedades, que Ele criou e salvou para O amarem eternamente?

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)

Desejaria receber atualizações instantâneas e gratuitas de "Glória da Idade Média" em meu email

domingo, 28 de novembro de 2010

Igreja e Civilização Cristã ‒ A Cristandade (3)

Se o mundo adotasse a Civilização Cristã resolveria todos os problemas?

Se todos os homens praticassem a Lei de Deus se resolveriam rapidamente todos os problemas políticos, econômicos, sociais, que nos atormentam.

Não se pode esperar uma solução enquanto os homens viverem na inobservância habitual da Lei de Deus.


A sociedade humana realizou alguma vez este ideal de perfeição?

Sem dúvida. Dí-lo o imortal Leão XIII: operada a Redenção e fundada a Igreja,

"como que despertando de antiga, longa e mortal letargia, o homem percebeu a luz da verdade, que tinha procurado e desejado em vão durante tantos séculos; reconheceu sobretudo que tinha nascido para bens muito mais altos e muito mais magníficos do que os bens frágeis e perecíveis que são atingidos pelos sentidos, e em torno dos quais tinha até então circunscrito seus pensamentos e suas preocupações. Compreendeu ele que toda a constituição da vida humana, a lei suprema, o fim a que tudo se deve sujeitar, é que, vindos de Deus, um dia devamos retornar a Ele.

"Desta fonte, sobre este fundamento, viu-se renascer a consciência da dignidade humana; o sentimento de que a fraternidade social é necessária fez então pulsar os corações; em conseqüência, os direitos e deveres atingiram sua perfeição, ou se fixaram integralmente, e, ao mesmo tempo, em diversos pontos, se expandiram virtudes tais, como a filosofia dos antigos sequer pôde jamais imaginar. Por isto, os desígnios dos homens, a conduta da vida, os costumes tomaram outro rumo. E, quando o conhecimento do Redentor se espalhou ao longe, quando sua virtude penetrou até os veios íntimos da sociedade, dissipando as trevas e os vícios da antigüidade, então se operou aquela transformação que, na era da Civilização Cristã, mudou inteiramente a face da terra". (Leão XIII Encíclica "Tametsi futura prospiscientibus", I-XI-1900).

Casimiro III, o Grande, rei da Polônia

O que é a civilização?

Civilização é o estado de uma sociedade humana que possui uma cultura, e que criou, segundo os princípios básicos desta cultura, todo um conjunto de costumes, de leis, de instituições, de sistemas literários e artísticos próprios.



O que é uma civilização católica?

Uma civilização é católica, se for a resultante fiel de uma cultura católica e se, pois, o espírito da Igreja, for o próprio princípio normativo e vital de seus costumes, leis instituições, e sistemas literários e artísticos.



O que é então a Civilização Cristã e a cultura cristã?

A civilização cristã é uma luminosa realidade feita de uma ordem e uma perfeição antes sobrenatural e celeste do que natural e terrestre, produto da cultura cristã, a qual por sua vez é filha da Igreja Católica.



O que é a cultura católica?

A cultura católica é o cultivo da inteligência, da vontade e da sensibilidade segundo as normas da moral ensinada pela Igreja.

Ela se identifica com a própria perfeição da alma.

Se ela existir na generalidade dos membros de uma sociedade humana, ela será um fato social e coletivo.

E constituirá um elemento — o mais importante — da própria perfeição social.


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)

Desejaria receber atualizações instantâneas e gratuitas de "Glória da Idade Média" em meu email

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Surto de medievalismo em São Paulo

Vilipendiada ao extremo pelo iluminismo, recuperada pela histografia moderna, a Idade Média tem um inesperado renascer na consideração de muitos paulistanos.

O “medieval reenactment" ‒ reencenaçao de um evento histórico medieval ‒ já largamente espalhado nos EUA encontra entusiastas na mais moderna capital brasileira. Artesoes fabricam armaduras, armas, roupas, pratos enquanto artistas reexumam partituras medievais.

Em São Paulo há “guildas” (antigas corporações de oficio) integradas por admiradores da vida medieval como a “Guilda dos Armoreiros” (fotos).

“Fazemos uma densa pesquisa em livros, documentos e catálogos de museus internacionais” explicou à imprensa o estudante de História Tarcísio Lakatos Polito.

Para produzir uma armadura, eles podem demorar meses ou anos, porém o ofício já se auto-sustenta.

Ateliês recriam roupas de época e os clientes podem pagar até R$ 10 mil. Olivier Georges Decroix, chef de cozinha do Consulado-Geral da França, estuda a culinária da Baixa Idade Média e prepara receitas medievais com faisões, javalis, patos, gansos e pães.

E não só para medievalistas, mas também para “ocasiões especiais do consulado”, explicou ele. O grupo Les Folies revive a música da Idade Média tocando gaitas de fole, tambores, flautas e rabeca em eventos medievalistas.

domingo, 21 de novembro de 2010

Papel de Cluny na formação da Idade Média ‒ 2


continuação do post anterior

Sobre os prédios de Cluny (celeiro, torres, fachada, etc.) ver também:


O êxito de Cluny foi assegurado antes de mais nada pela elevada espiritualidade que se cultivava lá, mas também por algumas outras condições que favoreceram seu desenvolvimento.

Ao contrário do que havia acontecido até então, o mosteiro de Cluny e as comunidades dependentes dele foram reconhecidas como isentas da jurisdição dos bispos locais e submetidas diretamente à do Pontífice Romano.

Isso comportava um vínculo especial com a Sé de Pedro, e graças precisamente à proteção e ao ânimo dos pontífices, os ideais de pureza e de fidelidade, que a reforma cluniacense pretendia buscar, puderam difundir-se rapidamente.

Além disso, os abades eram eleitos sem interferência alguma por parte das autoridades civis, ao contrário do que acontecia em outros lugares.

Pessoas verdadeiramente dignas se sucederam na guia de Cluny e das numerosas comunidades monásticas dependentes: o abade Odon de Cluny, de quem falei em uma catequese há dois meses, e outras grandes personalidades, como Aimar, Mayolo, Odilon e sobretudo Hugo o Grande, que levaram a cabo seu serviço durante longos períodos, assegurando estabilidade à reforma empreendida e à sua difusão. Além de Odon, são venerados como santos Mayolo, Odilon y Hugo.

A reforma cluniacense teve efeitos positivos não somente na purificação e no despertar da vida monástica, mas também na vida da Igreja universal.



De fato, a aspiração à perfeição evangélica representou um estímulo para combater dois graves males que afligiam a Igreja daquela época: a simonia, isto é, a compra de cargos pastorais, e a imoralidade de clero leigo.

Os abades de Cluny, com sua autoridade espiritual, os monges cluniacenses que se converteram em bispos, alguns deles inclusive papas, foram protagonistas desta imponente ação de renovação espiritual.

E os frutos não faltaram: o celibato dos sacerdotes voltou a ser estimado e vivido e, na assunção dos ofícios eclesiásticos, foram introduzidos procedimentos mais transparentes.

Foram também significativos os benefícios oferecidos à sociedade pelos mosteiros inspirados na reforma cluniacense. Em uma época em que somente as instituições eclesiásticas assistiam os indigentes, praticou-se com empenho a caridade.

Em todas as casas, uma pessoa se dedicava a hospedar os transeuntes e os peregrinos necessitados, os sacerdotes e os religiosos em viagem, e sobretudo os pobres que vinham pedir alimento e teto por algum dia.

Veja vídeo
Cluny
no seu 1100º aniversário
Não menos importantes foram outras duas instituições, típicas da civilização medieval, promovidas por Cluny: as chamadas “tréguas de Deus” e a “paz de Deus”.

Em uma época fortemente marcada pela violência e pelo espírito de vingança, com as “tréguas de Deus” se asseguravam longos períodos de não-beligerância, por ocasião de determinadas festas religiosas e de alguns períodos da semana. Com a “paz de Deus”, pedia-se, sob pena de uma censura canônica, o respeito pelas pessoas inermes e pelos lugares sagrados.

Na consciência dos povos da Europa, incrementava-se assim esse processo de longa gestação, que teria levado a reconhecer, de modo cada vez mais claro, dois elementos fundamentais para a construção da sociedade, isto é, o valor da pessoa humana e o bem primário da paz.

Além disso, como acontecia para as demais fundações monásticas, os mosteiros cluniacenses dispunham de amplas propriedades que, colocadas diligentemente a frutificar, contribuíram para o desenvolvimento da economia.

Junto ao trabalho manual, não faltaram tampouco algumas típicas atividades culturais do monaquismo medieval, como as escolas para crianças, a criação de bibliotecas, os scriptoria para a transcrição dos livros.

Dessa forma, há mil anos, quando estava em pleno desenvolvimento o processo de formação da identidade européia, a experiência cluniacense, difundida em vastas regiões do continente europeu, ofereceu sua contribuição importante e preciosa.

Exigiu a primazia dos bens do espírito; manteve elevada a tensão aos bens de Deus; inspirou e favoreceu iniciativas e instituições para a promoção dos valores humanos; educou para um espírito de paz.

Queridos irmãos, oremos para que todos aqueles que estão preocupados por um autêntico humanismo e pelo futuro da Europa saibam descobrir, valorizar e defender o rico patrimônio cultural e religioso desses séculos.

Planta de Cluny por volta de 1157 d.C.



domingo, 14 de novembro de 2010

Papel de Cluny na formação da Idade Média ‒ 1


Sobre os prédios de Cluny (celeiro, torres, fachada, etc.) ver também:


 Em 11 de novembro de 2009, durante a catequese das quartas-feiras, S.S. Bento XVI descreveu a vida e a importância para a história da Igreja do vasto complexo de abadias lideradas pela de Cluny, a “alma da Idade Média”.

Reproduzimos a continuação o essencial das palavras do Pontífice, traduzidas e difundidas pela agência Zenit.


Queridos irmãos e irmãs:

Nesta manhã, eu gostaria de falar-vos de um movimento monástico que teve grande importância nos séculos da Idade Média e que eu já havia mencionado em outras catequeses.

Trata-se da ordem de Cluny, que no começo do século XII, momento de sua máxima expansão, contava com quase 1.200 mosteiros: um número verdadeiramente impressionante!

Em Cluny, precisamente há 1.100 anos, em 910, fundou-se um mosteiro colocado sob a guia do abade Bernon, depois da doação de Guilherme o Piedoso, duque de Aquitânia.

Nesse momento, o monaquismo ocidental, que floresceu alguns anos antes com São Bento, havia decaído muito por diversas causas: as condições políticas e sociais instáveis, devido às contínuas invasões e devastações de povos não integrados no tecido europeu, a pobreza difundida e sobretudo a dependência das abadias dos senhores locais, que controlavam tudo o que pertencia aos territórios de sua competência.

Neste contexto, Cluny representou a alma de uma profunda renovação da vida monástica, para reconduzi-la à sua inspiração original.

Em Cluny, restaurou-se a observância da Regra de São Bento, com algumas adaptações já introduzidas por outros reformadores. Sobretudo, quis-se garantir o lugar fundamental que a liturgia deve ocupar na vida cristã.

Os monges cluniacenses se dedicaram com amor e grande cuidado à celebração das Horas litúrgicas, ao canto dos Salmos, a procissões tão devotas quanto solenes e, sobretudo, à celebração da Santa Missa.

Veja vídeo
Cluny hoje,
no 1100º aniversário
Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais, como, por exemplo, no começo de novembro, a comemoração dos fiéis defuntos, que também nós celebramos há pouco; incrementaram o culto a Nossa Senhora.

Reservou-se muita importância à liturgia, porque os monges de Cluny estavam convencidos de que esta era participação na liturgia do céu. E os monges se sentiam responsáveis por interceder diante do altar de Deus pelos vivos e pelos defuntos, dado que muitíssimos fiéis lhes pediam com insistência que rezassem por eles.


EXEMPLOS DE VIDA DOS ABADES SANTOS DE CLUNY


No demais, foi precisamente por este motivo que Guilherme o Piedoso quis o nascimento da abadia de Cluny. No antigo documento, que testemunha sua fundação, lemos:

“Estabeleço com este dom que em Cluny seja construído um mosteiro de regulares em honra dos santos apóstolos Pedro e Paulo e que nele se recolham monges que vivem segundo a regra de São Bento (...); que lá se frequente um venerável refúgio de oração com votos e súplicas, e se busque e se implore com todo desejo e íntimo ardor a vida celeste, e se dirijam ao Senhor assiduamente orações, invocações e súplicas”.

Para custodiar e alimentar este clima de oração, a regra cluniacense acentuou a importância do silêncio, a cuja disciplina os monges se submetiam de bom grado, convencidos de que a pureza das virtudes, às quais aspiravam, exigia um íntimo e constante recolhimento.

Não surpreende que rapidamente uma fama de santidade envolveu o mosteiro de Cluny e que muitas outras comunidades monásticas decidiram seguir seus costumes.

Muitos príncipes e papas pediram aos abades de Cluny que difundissem sua reforma, de maneira que, em pouco tempo, estendeu-se uma rede enorme de mosteiros ligados a Cluny ou com verdadeiros e próprios vínculos jurídicos, ou com uma espécie de afiliação carismática.
Planta de Cluny III, por volta de 1600


Assim, ia se desenhando uma Europa do espírito nas várias regiões da França, Itália, Espanha, Alemanha e Hungria.

continua no próximo post



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Abadia de Cluny: “alma da Idade Média” - II

São Mayeul abade
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Cluny liderou a vida religiosa medieval com glória e majestade. “Cluny é verdadeiramente uma nova Roma”, escreveu o historiador Delaruelle ("Histoire du Catholicisme en France", vol. I, p. 251).

A Basílica de São Pedro em Roma foi construída com alguns metros a mais da de Cluny para poder ser a maior da Cristandade.

“Não sei — diz D. Charles Poult — que entusiasmo, que voga, que moda salutar atrai todo mundo, Papas, príncipes e monges, a Cluny, como ao porto mais seguro.

“O estrangeiro se contagia: a Espanha e a Inglaterra. Cluny torna-se o guardião oficial da regularidade monástica. Um mosteiro decai na observância, o Papa o entrega ao zelo cluniacense.

“Hugo parece ser verdadeiramente o Abade dos abades, e, com exceção do Papa, ninguém é comparável a ele na Cristandade” ("Histoire de l’Église de France", t. I, p. 124).

Queremos estudar os primórdios do Sacro Império Romano Alemão?

Lá encontramos os cluniacenses dirigindo a Imperatriz Adelaide e ajudando com seus conselhos espirituais e políticos os três primeiros Otons, Conrado e Santo Henrique II a trabalharem pela restauração do Império de Carlos Magno.

Santo Odilon abade
A reconquista espanhola? De novo os cluniacenses aparecem colaborando na luta contra os muçulmanos.


É o Papado? Os cluniacenses lá estão para retirá lo do opróbrio em que caíra nos séculos IX e X, e, cerrando fileiras em torno de um de seus monges, São Gregório VII, colaboram com ele na luta gigantesca contra o Imperador Henrique IV para afirmar a primazia do espiritual sobre o temporal.

São as canções de gesta? Cluny, com todo o seu prestígio, compõe, incentiva e propaga essas epopéias da Cristandade.

É o feudalismo? Não terá sido Cluny o criador do feudalismo católico?

É a Cristandade, em todo o seu esplendor, que nos seduz?

Como negar que esse incomparável mosteiro a modelou com a perfeição com que hoje a conhecemos pela História?

Santo Odilon abade
Anouar Hakem defende que Cluny “preparou as guerras santas, mais ou menos como os enciclopedistas prepararam a Revolução Francesa por um trabalho de educação dos espíritos”.
Delaruelle diz que se pode sustentar que “Cluny contribuiu poderosamente para a formação do herói das cruzadas.

“Os escritores cluniacenses celebravam as virtudes do cavaleiro que põe sua espada ao serviço da Igreja”.

A Revolução Francesa não podia tolerar a presença de Cluny, "símbolo odioso" da "barbárie" medieval.

Cluny foi saqueda e devastada pela Revolução Francesa em 1790 e, como diz o post foi literalmente desfeita por Napoleão para aproveitar as pedras numa estrada.

Barbáries de liberdade, da igualdade e da fraternidade revolucionárias!!!









AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 7 de novembro de 2010

Igreja, Ordem, Paz e Idade Média ‒ A Cristandade (2)

No que consiste a ordem?

A ordem é a disposição das coisas segundo sua natureza. Assim, um relógio está em ordem quando todas as suas peças estão ordenadas segundo a natureza e o fim que lhes é próprio: apontar as horas.

Diz-se que há ordem no universo sideral porque todos os corpos celestes estão ordenados segundo sua natureza e fim.

A Idade Média tendeu para implantar essa ordem em todas as coisas.



De onde provinha a paz medieval?

A paz medieval vinha do fato que a ordem engendra a tranqüilidade. A tranqüilidade da ordem é a paz.



Basta ter tranqüilidade para ter paz?

Não. Não é qualquer tranqüilidade que merece ser chamada paz mas apenas a que resulta da ordem.

Por exemplo, a paz de consciência é a tranqüilidade da consciência reta: não pode confundir-se com o letargo da consciência embotada.



O que era a harmonia medieval?

Existe harmonia quando as relações entre dois seres são conformes à natureza e o fim de cada qual. A harmonia é o operar das coisas umas em relação às outras, segundo a ordem. Essa harmonia impregnou toda a Idade Média.



Qual é a relação entre ordem social e perfeição espiritual?

Quando um ser está inteiramente disposto segundo sua natureza, está em estado de perfeição.

Assim uma pessoa com grande capacidade de estudo, posta em uma Universidade em que haja todos os meios para estudar, está posta em condições perfeitas.

A trajetória dos astros é perfeita, porque corresponde inteiramente à natureza e ao fim de cada qual. A Idade Média visou pôr nessa perfeição em tudo. Por isso gerou muitos santos.



Qual é a condição essencial da ordem e da paz?

A posse da verdade religiosa é a condição essencial da ordem, da harmonia, da paz e da perfeição.



A vida foi difícil na Idade Média?

Sim. A fidelidade à Lei exige sacrifícios por vezes heróicos dos próprios católicos que vivem no seio da Igreja banhados pela superabundância da graça e de todos os meios de santificação. Foi o caso da Idade Média.



Se os indivíduos praticam a Lei de Deus, o que acontece na sociedade?

Isto equivale a perguntar o que acontece num relógio em que cada peça trabalha na perfeição. Dá as horas perfeitamente. Uma sociedade em que todos os fossem bons católicos, seria como a sociedade traçada por Santo Agostinho:

"imaginemos um exército constituído de soldados como os forma a doutrina de Jesus Cristo, governadores, maridos, esposos, pais, filhos, mestres, servos, reis, juízes, contribuintes, cobradores de impostos como os quer a doutrina cristã! E ousem (os pagãos) ainda dizer que essa doutrina é oposta aos interesses do Estado! Pelo contrário, cumpre-lhes reconhecer sem hesitação que ela é uma grande salvaguarda para o Estado, quando fielmente observada" (Epíst. CXXXVIII al. 5 ad Marcellinum, cap. II, n. 15).



Qual é o ideal de uma sociedade cristã?

Santo Agostinho, falando da Igreja Católica, exclama:

"Conduzes e instruis as crianças com ternura, os jovens com vigor, os anciãos com calma, como comporta a idade não só do corpo mas da alma. Submetes as esposas a seus maridos, por uma casta e fiel obediência, não para saciar a paixão, mas para propagar a espé¬cie e constituir a sociedade doméstica. Conferes autoridade aos mari¬dos sobre as esposas, não para que abusem da fragilidade do seu sexo, mas para que sigam as leis de um sincero amor. Subordinas os filhos aos pais por uma terna autoridade. Unes não só em sociedade, mas em uma como que fraternidade os cidadãos aos cidadãos, as nações às nações, e os homens entre si, pela recordação de seus pri¬mei¬ros pais. Ensinas aos reis a velar pelos povos, e prescreves aos povos que obedeçam os reis. Ensinas com solicitude a quem se deve a honra, a quem o afeto, a quem o respeito, a quem o temor, a quem o consolo, a quem a advertência, a quem o encorajamento, a quem a correção, a quem a reprimenda, a quem o castigo; e fazes saber de que modo, se nem todas as coisas a todos se devem, a todos de deve a caridade e a ninguém a injustiça". (De Moribus Ecclesiae, cap. XXX, n. 63).

Seria impossível descrever melhor o ideal de uma sociedade intei¬ra¬mente cristã. Poderia em uma sociedade a ordem, a paz, a harmonia, a perfeição ser levada a limite mais alto?


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Igreja e o Reino de Cristo na Terra ‒ A Cristandade (1)

O que a Idade Média teve de original, malgrado os defeitos humanos atuantes em todas as épocas históricas, é que foi por excelência a era da “Cristandade”. Isto é realizou o Reino de Cristo nesta terra, em toda a medida permitida pelas circunstâncias da época.

Cristandade: até hoje o termo e a realidade esplendorosa que ele exprime causam polêmica.

Tal vez ninguém a definiu melhor que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no hoje histórico artigo “A Cruzada do século XX”.

Atendendo a uma intenção didática, achamos melhor apresentar o conteúdo desse ensaio na forma de perguntas e respostas em sucessivos posts.

A finalidade da Igreja vai além da Terra?

Sim. A Igreja Católica foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para perpetuar entre os homens os benefícios da Redenção.

Sua finalidade se identifica, pois, com a da própria Redenção: expiar os pecados dos homens pelos méritos infinitamente preciosos do Homem-Deus; restituir assim a Deus a glória extrínseca que o pecado Lhe havia roubado; e abrir aos homens as portas do Céu.

Esta finalidade se realiza toda no plano sobrenatural, e com ordem à vida eterna. Ela transcende absolutamente tudo quanto é meramente natural, terreno, perecível.

Foi o que N. S. Jesus Cristo afirmou, quando disse a Pôncio Pilatos "meu Reino não é deste mundo" (João, 18-36).



A Igreja quer o Reino de Cristo neste mundo?

Sim. Há nos desígnios da Providência uma relação íntima entre a vida terrena e a vida eterna. A vida terrena é o caminho, a vida eterna é o fim.

O Reino de Cristo não é deste mundo, mas é neste mundo que está o caminho pelo qual chegaremos até ele. Assim como a Escola Militar é o caminho para a carreira das armas, ou o noviciado é o caminho para o definitivo ingresso numa Ordem Religiosa, assim a terra é o caminho para o Céu.



Como chegamos ao Céu?

Tornando-nos plenamente semelhantes a Deus, somos capazes de O amar plenamente, e de atrair sobre nós a plenitude de Seu amor. Ficamos, assim, preparados para a contemplação de Deus face a face, e para aquele eterno ato de amor, plenamente feliz, para o qual somos chamados no Céu.



O que é que é a vida terrena, então?

A vida terrena é, pois, um noviciado em que preparamos nossa alma para seu verdadeiro destino, que é ver a Deus face a face, e amá-lO por toda a eternidade.



Se nós formos bons, por quê nos importarmos com a ordem temporal?

Se nossa alma é boa, todas as nossas ações devem ser boas necessariamente, pois que a árvore boa não pode produzir senão bons frutos (Mat.7,17-18).

Assim, é absolutamente necessário, para que conquistemos o Céu, não só que em nosso interior amemos o bem e detestemos o mal, mas que por nossas ações pratiquemos o bem e evitemos o mal no estado que vivemos. Assim devemos agir na ordem temporal.



O Reino de Deus se realiza nesta Terra?

Sim. O Reino de Deus se realiza na sua plenitude no outro mundo, mas para todos nós ele começa a se realizar em estado germinativo já neste mundo.

Tal como em um noviciado, já se pratica a vida religiosa, embora em estado preparatório; e em uma escola militar um jovem se prepara para o Exército... vivendo a própria vida militar.



Qual é o sentido da festa de Cristo Rei?

É a festa de Cristo enquanto Rei Celeste cujo governo já se exerce neste mundo. É Rei quem possui de direito a autoridade suprema e plena. O Rei legisla, dirige e julga.



Quando se efetiva a Realeza de Cristo Rei?

Sua realeza se torna efetiva quando os súditos reconhecem seus direitos, e obedecem a suas leis.

Ora, Jesus Cristo possui sobre nós todos os direitos. Ele promulgou leis, dirige o mundo e julgará os homens.



Qual nossa parte na construção do Reino de Cristo?

Cabe-nos tornar efetivo o Reino de Cristo obedecendo a suas leis.



O Reino de Cristo é um fato social?

O Reinado de Cristo se exerce sobre as almas. Então, a alma de cada um de nós é uma parcela do campo de jurisdição de Cristo Rei.

O Reinado de Cristo será um fato social se as sociedades humanas Lhe prestarem obediência.



Como se realiza o Reino de Cristo nesta Terra?

O Reino de Cristo se torna efetivo na terra, individual e socialmente, quando os homens no íntimo de sua alma como em suas ações, e as sociedades em suas instituições, leis, costumes, manifestações culturais e artísticas, se conformam com a Lei de Cristo.



O Reino de Cristo nesta Terra é eterno?

Não. Por mais concreta, brilhante e tangível que seja a realidade terrena do Reino de Cristo — no século XIII, por exemplo — é preciso não esquecer que este Reino não é senão preparação e proêmio. Na sua plenitude, o Reino de Deus se realizará no Céu: "O meu Reino não é deste mundo...". (João, 18-36).


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)

domingo, 24 de outubro de 2010

A falsa fábula da transmissão do saber antigo pelos árabes

Saladino incendeia uma cidade,
Chroniques de Guilhaume de Tyr, BNF



“Se acreditarmos nos manuais, os de ontem e mais ainda nos de hoje, a herança da Grécia e de Roma foi completamente ignorada no nosso mundo ocidental, desde a queda do Império Romano até a “Renascença”: mil anos de obscurantismo!

“Afirma-se, no mesmo embalo, que os autores de Antiguidade não foram conhecidos senão por intermédio dos Árabes, únicos capazes de explorar e transmitir essa cultura que nossos clérigos menosprezavam.

“Esses livros falam a vontade dos sábios e dos tradutores de Toledo que no tempo dos califas de Córdoba teriam estudado e teriam tornado conhecidos os autores antigos.

“Mas, eles se esquecem de lembrar que essa cidade episcopal, como muitas outras, e numerosos mosteiros, já no tempo dos reis bárbaros, e bem antes da ocupação muçulmana, era um grande centro de vida intelectual totalmente penetrado pela cultura antiga.

“Os clérigos que ficaram cristãos eram muito conscientes da importância de transmitir essa herança, e continuaram seus trabalhos pura e simplesmente sob os novos senhores.

“Querem nos fazer acreditar nas piores asneiras e mostram para nós os monges como copistas ignaros, só ocupados na transcrição dos textos sagrados, obsedados em jogar no fogo preciosos manuscritos dos quais nada podiam compreender.

“Entretanto, testemunha alguma nos tempos obscuros da Idade Média viu alguma vez uma biblioteca entregue às chamas e são numerosos os que, pelo contrário, falam de mosteiros reunindo importantes coleções de textos antigos.

“É evidente que os grandes centros de estudo gregos não se situavam de maneira alguma em terra de Islã, mas em Bizâncio. (…)

“Não há sequer indício na Igreja, nem no Oriente nem no Ocidente, de qualquer tipo de fanatismo, enquanto que os muçulmanos eles próprios relatam numerosos exemplos do furor de seus teólogos e de seus chefes religiosos contra os estudos profanos.(…)

“Os 'árabes' certamente procuraram menos e estudaram menos os autores gregos e romanos que os cristãos.

“Os ocidentais não tinham necessidade alguma da ajuda dos árabes porque dispunham em seus países de coleções de textos antigos, latinos e gregos, reunidos no tempo do império romano e que tinham permanecido nos locais originais.

“Sob todo ponto de vista, era em Bizâncio e não nos “árabes” que os clérigos de Europa iam aperfeiçoar seu conhecimento da Antiguidade.

“As peregrinações na Terra Santa, os Concílios Ecumênicos, as viagens de prelados a Constantinopla mantinham e reforçavam toda espécie de contatos intelectuais.

“Na Espanha dos visigodos, os mosteiros, as escolas episcopais, os reis e os nobres recolhiam os livros antigos em suas bibliotecas.

“A Espanha servia de etapa na rota marítima rumo à Armorique (Bretanha) e à Irlanda onde os monges, lá também, estudavam os textos profanos da Antiguidade.

“Pode se esquecer que os Bizantinos, nos anos 550, reconquistaram e ocuparam a Itália toda, as províncias marítimas da Espanha e uma boa parte do que fora a África romana?

“Que Ravenna ficou grega durante mais de duzentos anos e que os italianos chamaram essa região de Romagna, a terra dos romanos, quer dizer dos bizantinos, herdeiros do império romano?

“Também nada é dito sobre o papel dos mercadores da Itália, da Provence ou da Catalunha que desde os anos mil frequentavam regularmente os portos do Oriente, com mais frequência Constantinopla que Cairo.

“Seria preciso imaginá-los como seres cegos, sem alma e sem cérebro, sem outra curiosidade senão suas especiarias?


“O esquema foi imposto, mas está errado.

“Apresentar os ocidentais como tributários das lições dadas pelos árabes é facciosismo e ignorância demais. Não é outra coisa senão uma fábula que reflete uma curiosa tendência para se denigrar a si próprio.”

(Fonte: Jacques Heers, Nouvelle Revue d’Histoire, n°1. Heers foi professor de História e ensinou nas Faculdades de Literatura e nas Universidades de Aix-en-Provence, Alger, Caen, Rouen, Paris X-Nanterre e Sorbonne (Paris IV). Foi Diretor do Departamento de Estudos Medievais da Universidade Paris-Sorbonne.)


domingo, 17 de outubro de 2010

Como era uma "Canção de Cruzada"?


A Canção de Cruzada seguinte foi criada para encorajar os cristãos a participar na campanha contra a invasão islâmica da Espanha.

A cruzada resultante deu na grande vitória de Las Navas de Tolosa em 1212.

Foi composta após a derrota de Alarcos (19 de julho de 1195) e do avanço dos almohades de Abu Yusuf na península ibérica. O autor Gavaudan (1195-1215) foi um trovador-soldado das cortes de Tolosa e posteriormente em Castela.

Senhores, por causa dos nossos pecados cresce a força dos sarracenos; Saladino tomou Jerusalém (em 1187) e a cidade ainda não foi recuperada.

O rei de Marrocos fez-nos saber que combaterá contra todos os reis cristãos com seus pérfidos andaluzes e árabes, armados contra a fé de Cristo.

Ele convocou a todos os alcaides (governadores de fortalezas), almofades, mouros, godos e bereberés, e não queda homem forte nem débil que não tenha se reunido a todos eles.

Nunca uma chuva tão torrencial fez tanto dano como quando eles passam e se apossam dos prados. Eles devastam como ovelhas que não deixam nem broto nem raiz.

Navas de Tolosa
Seus escolhidos têm tanto orgulho que acham que submeterão o mundo todo. Marroquinos e almorávides instalam-se nos morros e nos vales.

Fanfarreiam entre eles: “¡Francos, afastai-vos! Nossas são a Provença e o Tolosanés e tudo que há até o Puy.”

Nunca se ouviu uma bazófia tão feroz nesses cães falsos, malditos sem fé.

Veja vídeo
Canção de Cruzada:
por causa dos nossos pecados
Ouvi vós, imperador (Enrique IV, 1191-1197), rei da França (Felipe Augusto, 1180-1223), com vossos primos, o rei inglês (Ricardo Coração de Leão, 1189-1199), e o conde de Poitiers: socorrei ao rei da Espanha.

Que nunca ninguém pôde ter ficado tão perto de melhor servir a Deus. Com Ele vencereis todos os cães que Mahomé enganou e os renegados apóstatas.

Jesus Cristo que veio pregar para que nosso fim seja bom, Ele nos ensina que este é o reto caminho; pois, com a penitência será perdoado o pecado que vem de Adão (bula de Inocêncio III com indulgências de cruzada na campanha que culminou com a grande vitória cristã de Las Navas de Tolosa), e quer nos dar certeza e segurança de que, se cremos n’Ele, Eles nos exaltará por cima dos que estão mais elevados, e será nosso guia contra os felões vis e falsos.

Navas de Tolosa
Posto que possuímos a grande Fé, não deixemos nossas herdades a mercê de cães negros ultramarinos. Que cada uno reflita antes de sofrermos prejuízo.

Portugueses, galegos, castelhanos, navarros, aragoneses e da Cerdenha ficaram como barreira mas eles os tem repelido e humilhado.

Quando vejam os barões cruzados: alemães, franceses, de Cambray, ingleses, bretões, angevinos, bearneses e gascões, misturados com nós e os provençais todos numa só multidão, podereis estar certos que, com os hispanos quebraremos o ímpeto da invasão e cortar-lhe-emos a cabeça e as mãos até deixar mortos e aniquilados a todos. Depois, repartir-se-á entre nós todo o ouro.

Gavaudan será profeta de que acontecerá o que eu tenho dito.

Morram os cães! E Deus será honrado e servido onde Bafoma era reverenciado.

Video: Canção de Cruzada: por causa dos nossos pecados

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Igreja medieval glorificou a santidade da família, da vida e da Moral

As religiões pagãs demonstraram - e demonstram ainda - um espantoso menosprezo pela vida. O prof. Thomas Woods da alguns exemplos no video embaixo.

A Igreja Católica recolocou a santidade da família - fonte da vida -, da vida e da Moral no ponto central rodeado de respeito e veneração.

W. E. H. Lecky, citado por Woods, destaca que nem na prática nem na teoria a caridade ocupou na Antigüidade uma posição comparável à que teve no Cristianismo.

O historiador da medicina Fielding Garrison mostra que antes de Cristo "a atitude face à doença e à desgraça não era de compaixão. O crédito de cuidar dos seres humanos enfermos em grande escala deve ser atribuído à Igreja”.


Os cristãos causavam admiração pela coragem com que atendiam os agonizantes e enterravam os mortos. Os pagãos abandonavam em ruas e estradas os parentes e melhores amigos doentes, semi-mortos, ou mortos sem enterrar.

Por toda parte, Santos e instituições eclesiásticas trabalharam incessantemente para reverter essa sinistra situação.

O próprio Santo Agostinho deu exemplos eminentes no fim do império romano: fundou uma hospedaria para peregrinos, resgatou escravos, deu roupa aos pobres.

O grande pregador da Corte de Constantinopla, São João Crisóstomo, fundou hospitais na capital do Império de Oriente. São Cipriano e Santo Efrém organizaram os auxílios durante epidemias e fomes.

Os mosteiros, masculinos e femininos estiveram na ponta de lança da restauração do valor da vida.

O rei de França São Luís IX dizia que os mosteiros eram o "patrimônio dos pobres". Eles davam diariamente esmolas aos carentes. Por vezes, míseros seres humanos passavam a vida dependendo da caridade monástica ou episcopal.

Os religiosos também distribuíam alimentos aos pobres em sufrágio da alma de um religioso falecido. Isto era feito durante trinta dias no caso do falecimento de um simples monge, e durante um ano no caso de um abade. E, às vezes, perpetuamente.

domingo, 3 de outubro de 2010

O simbolismo do leão: Jesus Cristo; e da leoa: Nossa Senhora (2)


continuação do post anterior

O demônio enganou o homem; Deus venceu o homem, que não o reconheceu, e depois ao diabo, mediante sua adequada virtude. Se o demônio tivesse sabido que aquele homem mortal era Deus, não o havia conduzido à crucificação.

Assim Deus obrou habilmente, sem que o demônio se dessa conta; Deus se ocultou de nosso inimigo, que não soube que Deus era aquele homem até que o comprovou. Deus se ocultou tanto que os anjos do céu que estavam no Paraíso não o reconheceram. Por isso, quando voltou o Filho de Deus em majestade para o lugar de onde havia partido quando se encarnou por nós, perguntaram aos anjos que estavam com ele:

“‒ Quem é esse rei de glória que regressa com o triunfo?”

Os que estavam com Deus deram a seguinte resposta:

“‒ Este é o rei de glória que regressa com o triunfo.”

E os anjos que estavam no céu também perguntaram:

“‒ Por que carrega roupas de cor vermelha?”

domingo, 26 de setembro de 2010

O simbolismo do leão: Jesus Cristo; e da leoa: Nossa Senhora (1)

Leão na catedral de Sessa, Itália
No site do prof. Ricardo da Costa, Professor Associado I de História e Filosofia Medieval da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e membro de numerosas academias, o leitor encontra artigos e documentos de grande valor para o conhecimento da Idade Média.

Os medievais tinham uma visão ao mesmo tempo muito prática e altamente simbólica da realidade. Eles partiam da observação material e se elevavam facilmente até as culminâncias da metafísica e da teologia como quem sobe e desce pelas ladeiras de uma colina florida.

Eis um exemplo tirado pelo prof. Costa de um Bestiário medieval. Os Bestiários são livros típicos da era medieval que alimentavam essa contemplação da ordem natural.

O exemplo expõe o simbolismo do leão e os ensinamentos que Deus pôs nesse animal visando a elevação do homem até a Sabedoria infinita:

“O que em grego se chama “leão” significa “rei” em francês. O leão, de várias formas, domina muitos animais. Por isso o leão é rei. Escutai agora suas propriedades.

Tem a expressão ardente, o pescoço grosso e com juba; o peito, na frente, é quadrado, valente e agressivo, os quartos traseiros, delgados; tem um grande rabo e as patas lisas e ágeis próximas aos pés; os pés, grossos e cortados, têm unhas largas e curvadas. Quando tem fome, enfurecido, trata os animais como a esse asno que urra e fala. Escutai, pois, com toda a convicção, o significado disso.

Leão, Espanha. Metropolitan Museum of Art, New York
O leão significa o Filho da Virgem Maria. É, sem dúvida alguma, o rei de todos os homens; por sua própria natureza, tem poder sobre todas as criaturas. Com atitude feroz e terrível vingança aparecerá aos judeus quando os julgar, pois eles obraram mal quando o cravaram na cruz, e devido a esta ação perversa não têm rei próprio.

O peito quadrado representa a força divina; os quartos traseiros muito delgados mostram que Ele foi humano depois de divino; o rabo, a justiça que se fecha sobre nós; mediante a pata, que tem lisa, mostra que Deus é rápido, e que foi conveniente se entregar por nós; o pé, que tem cortado, mostra que Deus rodeará o mundo e o terá no punho; através das unhas, se entende a vingança contra os judeus, e pelo asno entendemos evidentemente aos judeus.


O asno é estúpido por natureza, como diz a Escritura, e não sairá de seu caminho a menos que o arranquem dali. A mesma natureza têm os judeus, que são uns néscios: não crêem em Deus, a não ser pela força; não se converterão, a menos que Deus lhes dê essa mercê. Escutai agora outra natureza, segundo o texto sagrado.